N'água e na pedra amor deixa gravados
seus hieróglifos e mensagens, suas
verdades mais secretas e mais nuas.

"Entre o ser e as coisas"
Carlos Drummond

terça-feira, 13 de junho de 2017

Resenha de cinema: "Algumas Garotas" (2013)


"Some Girl(s)"
89'

Direção:
Daisy von Scherler Mayer

Roteiro:
Neil LaBute

Baseado na peça de:
Neil LaBute

Elenco:
Adam Brody, Kristen Bell, Zoe Kazan,
Jennifer Morrison, Mía Maestro, Emily Watson

SINOPSE

Um jovem escritor, prestes a se casar, procura, em diferentes cidades dos EUA, algumas de suas ex-namoradas, para passar a limpo seus relacionamentos antigos e reparar transgressões que cometeu.

RESENHA

Este filme, categorizado erroneamente como comédia em vários sites, não é um filme para diversão. É para reflexão. O que temos aqui é um drama psicológico. Um drama bastante pesado.

| Spoilers a partir deste ponto |

quarta-feira, 17 de maio de 2017

A busca de uma sociedade mais justa e mais equilibrada


Em tempos de cortes no orçamento público e reformas que penalizam os cidadãos que não fazem parte do estrato mais rico da sociedade (que pode até ser resumido, de certo modo, em mais ou menos 1% da população), há de se perguntar se é realmente justo que, numa suposta tentativa de melhorar a economia e as taxas de desemprego, use-se a tática de precarizar ainda mais a situação financeira da parte menos rica da população, ou, para dizer de outra forma, da parte mais pobre da população.

Na verdade, o que os poderes políticos e econômicos instituídos desejam é aumentar ainda mais a sua já escandalosa superioridade monetária em relação ao resto do mundo (pois se trata, aqui, de um processo global).

Nesse sentido, é importante lembrar o estudo, (relatório original aqui) apresentado neste ano (2017) no Fórum Econômico Mundial de Davos, feito pela ONG Oxfam, que, entre outras coisas, mostra que:

. Oito homens brancos detêm a mesma riqueza de toda a metade mais pobre da população mundial *

. 1% da população mundial detém a mesma riqueza dos 99% restantes **

. Os 1.810 maiores bilionários do mundo, dos quais 89% são homens (segundo a revista Forbes), detêm a mesma riqueza dos 70% mais pobres da população mundial ***

. Os 50% mais pobres do planeta detêm menos de 0,25% da riqueza mundial ****



* Relatório Oxfam, página 2

** Relatório Oxfam, página 12

*** Relatório Oxfam, página 5

**** Relatório Oxfam, página 11

O relatório pode ser acessado aqui:

"Uma economia para os 99%"

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Reportagem da Deutsche Welle:

"ao mesmo tempo em que muitos salários se encontram estagnados, as remunerações dos presidentes e altos diretores de grandes empresas têm disparado. 'Os investimentos em saúde e educação são cortados, enquanto as corporações e os super-ricos reduzem ao mínimo sua contribuição fiscal'".

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Dentro do sistema econômico em que vivemos, certas profissões, cargos e posições são excessivamente mais bem recompensadas monetariamente do que outras, de maneira injustificável, uma vez que a carga e a importância do trabalho não são tão diferentes a ponto de gerar tamanho abismo.

O capitalismo é como um cavalo selvagem. Ele precisa ser domado para que a Humanidade caminhe com ele proveitosamente, sem risco de se machucar com coices e movimentos bruscos - e de perder o seu rumo.

Caso contrário, ele pode gerar uma desigualdade tão extrema, em termos de renda, que chega a obstruir os direitos que, como civilização, decidimos que são básicos para qualquer ser humano.

A maneira mais conhecida de domar o capitalismo é através das leis - particularmente, dos impostos e sua utilização na concessão de direitos sociais universais, como acesso à saúde, à instrução, a uma vida segura e à aposentadoria, e do estabelecimento de um valor mínimo para o salário de todas/todos as/os trabalhadoras/es, que lhes permita uma vida plena, do ponto de vista aquisitivo.

Os impostos que deveriam compor a maior parte do montante arrecadado são os ligados à renda, como salários, lucros e dividendos, com uma gradação que incida com porcentagens cada vez maiores, à medida em que os rendimentos aumentem.

Mais recursos estariam disponíveis, assim, para ser investidos nos serviços públicos referidos acima - e, também, no sistema previdenciário, que não dependeria somente das contribuições de trabalhadores e empregadores.

A divisão em estratos de riqueza ainda existiria, mas a distância entre um e outro não seria tão grande (ou imensa, como é hoje).

Ao mesmo tempo, o desejo do enriquecimento ou da manutenção da riqueza, que move tantos e é considerado por muitos o motor do desenvolvimento, conservaria o seu espaço - dando maior relevo, porém, à importância dos outros valores da vida.

A isenção dos impostos ligados ao consumo, especialmente aos produtos mais básicos e também aos que podem proporcionar a evolução de toda a sociedade, também é justa e necessária, além de benéfica para todos os estratos sociais.

Mas elaborar leis não é suficiente.

Paralelamente a isso, para que os indivíduos que ocupam os cargos públicos, responsáveis pelo manejo dos recursos arrecadados, os utilizem de forma honesta e competente, é fundamental haver também uma mudança ética na sociedade como um todo.

Não se pode esperar que essa mudança venha exclusivamente a partir dos/das governantes, legisladores/as e juízes/as. Afinal, eles/elas refletem e reproduzem, sob vários ângulos, o que nós somos como coletividade.

A regeneração deles/delas está condicionada à de toda a população, e esta só acontecerá quando cada um de nós procurar constantemente se transformar para melhor, tanto em relação ao cumprimento das leis institucionalizadas, como também quanto ao senso de justiça e respeito nas relações cotidianas com outras pessoas, sejam próximas ou estranhas.

Quando uma pessoa busca sinceramente evoluir eticamente, toda a sociedade evolui junto com ela. Toda pessoa faz diferença. Suas atitudes, comportamentos e mentalidades influenciam a maneira como o mundo caminha. E todos temos margem para tornarmo-nos seres humanos melhores, sempre.

Tomando as rédeas da evolução de nossas vidas particulares, em termos de honestidade, cuidado, solidariedade, responsabilidade e respeito, estamos tomando as rédeas da evolução de nossa vida como sociedade.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Asa

Você é como alguém que morreu em mim
e me deixou flores.

Você passou, embora ainda viva,
inscrevendo no espelho da minha lembrança
o seu inelutável e sublime contorno.

Não te contemplo como antes,
mas em horas terríveis
você aparece e me apazigua
como se nunca houvesse ido.

Você não é mais uma algema.

É um furo de sol em meio às nuvens,
despontando inusitadamente
em dias obscuros e gelados.

Você é alguém que nasceu em mim
e brotou como uma asa.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Citação: Emmanuel

"Conserva a serenidade ante as escolhas do próximo e vive a própria vida, deixando aos outros a liberdade de viver a existência que Deus lhes concedeu."

Calma
(1978)

Emmanuel

(por Francisco Cândido Xavier)

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Citação: Carlos Drummond de Andrade


A Flor e a Náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres, mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

A rosa do povo
(1945)

Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987)

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Este é o poema, na íntegra, que foi recitado por Fernanda Montenegro e Judi Dench na cerimônia de abertura das Olimpíadas Rio 2016.